A minha primeira memória do João é o de correr ao seu lado, num treino da equipa de futebol da nossa escola. Tínhamos 7 anos e corríamos no mesmo tempo, para o mesmo sítio e pela mesma razão. O seu olhar puxava por mim e o meu puxava por ele. Sempre foi assim.

Nunca esteve muito tempo na mesma toca. Saía tão naturalmente quanto voltava, ágil e discreto como os verdadeiros, o Coelho mudava de casa.

Sempre que nos voltávamos a ver, o tempo tinha passado e a nossa paixão tinha mudado de roupa, mas continuávamos a correr no mesmo tempo, para o mesmo sítio e pela mesma razão.

Seja no passe e corte ou no move mais forte, para mim o João sempre foi o melhor aluno e o melhor professor.

Aos 21, o Coelho voltava de Londres pronto para deixar a sua marca e eu estava pronto para viver direito… fazer o mundo sentir o que eu sinto com o meu irmão.

A música era a musa e o J doou-lhe o seu tempo. Tentou, criou e errou, até chegar a Slow J.

Determinado a ser parte da arte da solução, cortou o cordão umbilical e falou do alto para Portugal.

Contou as histórias que vivia, na sua tão única e múltipla perspectiva e, sempre fiel à sua essência, disse a sua verdade aos nossos gigantes.

Assim surgiu The Free Food Tape.

Não sabíamos se ia ser ouvido mas lançá-lo alimentou-nos o espírito. Usávamos aquilo que tínhamos e isso mostrava-se mais que suficiente para, a cada dia que passava, sermos mais.

Mais lentos, continuávamos a correr no mesmo tempo, para o mesmo sítio e pela mesma razão.

Entres grandes e pequenos beats, perdido e achado em Lisboa com os kambas, surgiu, lentamente, The Art Of Slowing Down.

T.A.O.S.D trouxe o sonho cá para fora e disse-nos que a felicidade estava acessível, dentro de nós. Ensinou-nos a encontrar uma casa na nossa verdade e a usar a nossa arte para transformar o medo em fé, porque depois desta vida…

Agora, escrevo sentado no tapete do nosso estúdio, a ouvir e a sentir Fome, nas vésperas de lançar uma nova história, uma nova marca e uma nova ideia, relembrando os vários passos e impasses que partilhei com o João, enquanto continuamos a viver no mesmo tempo, para o mesmo sítio e pela mesma razão.